09/09/2026

Como Expandir a Capacidade de Amar em Seres Humanos

Como Expandir a Capacidade de Amar em Seres Humanos
Como Expandir a Capacidade de Amar em Seres Humanos
Por Giuliano Milan

Uma pergunta que recebo com frequência, principalmente de pais, é se dá para ensinar uma criança a ser mais amorosa, mais empática, mais capaz de se colocar no lugar do outro. E a resposta é sim, mas é importante entender que isso não acontece por um caminho só. Ao longo dos anos, testemunhando transformações reais em famílias, empresários e atletas, percebi que a capacidade de amar se expande através de várias frentes trabalhando juntas, e cada uma delas importa à sua maneira.

Considero importante a educação emocional. Uma criança que cresce em um ambiente, seja em casa ou na escola, onde se ensina nomear sentimentos, resolver conflitos com palavras e reconhecer a emoção do colega antes de reagir, sai na frente. Não é sobre discurso de bondade, é sobre repertório. A criança que aprende cedo a identificar o que sente tem muito mais chance de reconhecer o que o outro sente também. Por isso defendo, e defendo com convicção, que currículos escolares deveriam incluir aprendizagem socioemocional como parte central da formação.

A prática contemplativa, que inclui meditação, mas não se resume a ela. Já vi pessoas extremamente duras, competitivas ao extremo, começarem a mudar depois de meses de prática consistente, porque um corpo que aprende a sair do estado de alerta sobra espaço para sentir o outro. Quando meditamos, nossos centros de compaixão no cérebro são reforçados, segundo o cientista Andrew Newberg e o Dr. Srinivasan Pillay.

O acompanhamento terapêutico e, quando necessário, psiquiátrico são ferramentas que podem expandir a compaixão consigo e com o outro em alguns casos. Terapias como a cognitivo comportamental e abordagens baseadas em aceitação e compromisso ajudam a pessoa a entender de onde vêm os próprios padrões de defesa.

O voluntariado e o contato direto com a dor do outro são muito importantes também. Existe algo que só se aprende fazendo, e ajudar quem precisa é uma dessas coisas. Quando alguém sai da própria bolha e passa a servir de forma ativa, seja numa ONG, numa causa comunitária, num projeto social, a empatia deixa de ser conceito e vira experiência vivida. Eu recomendo isso com a mesma seriedade que recomendo qualquer prática contemplativa, porque servir também regula o sistema nervoso, só que pelo caminho da conexão em vez do silêncio.

E existe ainda uma outra frente, que é maior do que qualquer escolha individual: as políticas públicas. Não dá para colocar toda a responsabilidade de construir uma sociedade mais compassiva nos ombros de cada pessoa isoladamente. Acesso universal à saúde mental, programas de meditação gratuitos em espaços comunitários, capacitação de professores em habilidades socioemocionais, incentivo real ao voluntariado, políticas de inclusão para grupos marginalizados, tudo isso faz parte do mesmo projeto. Uma sociedade só fica mais empática quando as estruturas que ela oferece facilitam isso, e não apenas quando os indivíduos se esforçam para compensar o que falta.

O sofrimento, por sinal, também tem um papel curioso nessa equação. Já vi dor virar ponte para compaixão, mas isso só acontece quando essa dor é processada com apoio adequado, seja terapia, seja rede de suporte, seja as duas coisas juntas. Dor não processada não abre ninguém, ela fecha. Por isso insisto tanto que nenhuma dessas frentes deveria ser tratada como caminho único ou suficiente sozinha.

Se eu tivesse que resumir para meus clientes o que realmente expande a capacidade humana de amar, diria isso: é educação emocional desde cedo, é prática contemplativa constante, é terapia e acompanhamento profissional quando a ferida pede, é sair da própria bolha através do serviço ao outro, e é viver numa sociedade que constrói, através de políticas públicas sérias, as condições para que tudo isso floresça. Nenhuma dessas peças sozinha dá conta do recado. Juntas, elas formam o caminho.