Entrevista 220 Podcast — Taiana D’Egmont — 2023. #09 Saiba Como Conquistar um Super Cérebro, com Giuliano Milan. Programa: 220 Podcast (sobre alto desempenho, saúde e produtividade). Apresentadora: Taiana D’Egmont. Convidado: Giuliano Milan. Publicado em: 04 de maio de 2023.
Por que abandonar uma carreira promissora? Taiana abriu a conversa lembrando que Giuliano se formou em Administração pela FGV e teve uma carreira promissora como executivo — inclusive dividindo sala com alguém que hoje é presidente da Procter & Gamble para a América Latina — e perguntou o que o fez abandonar esse caminho. Giuliano contou que a virada começou ainda na faculdade, observando pessoas de alto desempenho mas com baixa qualidade de vida: “Eu percebia muitas pessoas na Getúlio Vargas ali e também em outras faculdades muito estressadas, ansiosas, e às vezes não tão felizes. E eu pensava: eu não quero chegar com 40 anos sendo uma pessoa infeliz e cheia de sucesso, muito rica. Eu quero ser feliz e ter muito sucesso e ter dinheiro.” Ele destacou que esse modelo de sacrifício pelo sucesso continua atual, mesmo décadas depois: “Ainda usamos esse formato de me matar, se sacrificar, para chegar no topo — que é algo não muito sustentável, às vezes, porque depois esse topo se torna muito caro em termos de saúde, de ausência em relação à educação dos filhos.”
A origem do interesse por criatividade e meditação. Giuliano voltou a um livro que já havia citado em outras entrevistas — Criatividade nos Negócios, de dois professores de Stanford — como o ponto de virada de sua trajetória: “Achei fascinante uma faculdade ter uma matéria de criatividade. Isso existia na época? Nem sei se tem faculdades no Brasil de administração que têm uma cadeira de criatividade ainda hoje.” Ele descreveu como, a partir desse contato, passou a estudar meditação — em uma época em que ainda não havia o respaldo científico que existe hoje, e em que a prática estava fortemente ligada a tradições religiosas: “Eu tive que entrar em todas essas áreas e ia conseguindo buscar aquilo que eu tava querendo: eu quero uma gestão de estresse e ansiedade através de técnicas de meditação, de relaxamento mais profundo, mas desprovidas da necessidade das ideologias ou das crenças, que muitas vezes são conflitantes, limitadoras.” “Hoje em dia eu aplico a meditação como uma ferramenta-chave no meu processo de trabalhar com o ser humano. (…) Só que ela é uma meditação desprovida de religião. Eu tenho clientes que são judeus, ateus, católicos, protestantes.”
Como funciona o processo de mentoria. Sobre como é o início do trabalho com um cliente novo, Giuliano explicou que atende, no máximo, 15 pessoas em mentoria individual — o que explica por que seus clientes costumam ser nomes conhecidos: “Eles passam por um processo de sessões, uma vez por semana, onde eu vou acompanhar esse cliente, vou entender a bagagem dele, de acordo com a minha metodologia, e vou começar a aplicar algumas técnicas. (…) Bruninho tá comigo desde 2012 — então são 10 anos que eu converso com ele uma vez por semana, pelo menos uma hora.”
A lógica do cérebro: a máquina mais potente que existe. Taiana pediu para Giuliano explicar, de forma mais técnica, a lógica que embasa seu método. Ele descreveu o cérebro como a “máquina mais potente que existe” — mas cuja função original não é gerar qualidade de vida, e sim garantir a sobrevivência: “O seu cérebro tem uma missão inerente de manter você viva a qualquer custo. E isso, se a gente for pensar bem, nos últimos milhões de anos de evolução neurológica…” Ele voltou à metáfora da “cebola” cerebral, em que estruturas mais profundas e antigas — compartilhadas com répteis e outras espécies — coexistem com o neocórtex, muito mais recente: “Esse cérebro reptiliano tem aí seus 400, 500 milhões de anos de maturação. (…) O nosso neocórtex tem apenas 200 mil anos — ele é um bebê, que talvez pareça até extinto. Um cientista fala que, na Terra, uma espécie testada por 200 mil anos não é garantia de que ela vai continuar existindo; você tem espécies de milhões de anos.” Destacou o papel das amígdalas cerebrais, citando novamente o médico Srinivasan Pillay, e a diferença de velocidade entre o processamento inconsciente e consciente: “Ela é uma especialista em escanear medo 24 horas por dia. (…) Esse cérebro inconsciente funciona numa velocidade de 20 a 40 milésimos de segundo. (…) O nosso neocórtex, que está aqui conversando com você, funciona a 400 milésimos — 10 vezes mais lento.” “Nós somos muito mais inconscientes do que conscientes. 80% do nosso cérebro funciona na base da inconsciência, do automático, de milhões de anos — e quem tá conversando comigo agora é só o neocórtex, 20%. Então quem manda, na verdade, não são os 20%, são os 80%.”
Como a amígdala reage ao ambiente moderno. Giuliano explicou que sons altos, cheiros fortes e até imagens — reais ou não — ativam a amígdala da mesma forma, e por isso ambientes corporativos modernos têm investido em “neuroarquitetura”: “Você vê os escritórios modernos — sede da Google em São Francisco, tem uma natureza, um rio passando por debaixo, uma árvore, parece aquelas plataformas da Disney. Porque eles sabem que isso acalma o cérebro inconsciente.” Detalhou também as três respostas possíveis do cérebro diante de uma ameaça — paralisia, fuga ou ataque — e como isso se aplica ao ambiente corporativo: “Quando você tem um chefe, você tá com medo dele te mandar embora, a sua amígdala vai ativar, porque ela só entende vida ou morte o tempo todo — não tem as nuances de uma relação corporativa.”
Por que estresse e ansiedade prejudicam a performance. Sobre por que estresse crônico é, segundo ele, o “maior vilão” da performance, Giuliano explicou o mecanismo neurológico por trás da queda de desempenho sob pressão extrema — usando o próprio Bruno Rezende como exemplo: “O cérebro com medo ele desliga o neocórtex — ele desativa algumas funções, porque vai te preparar para matar ou fugir, uma resposta radical. Então a sua criatividade cai, a sua inteligência associativa cai.” “Por que que você pega um nadador, ou às vezes um ginasta, que ganhou medalha de ouro em todos os mundiais, chega na Olimpíada — a competição mais importante — e cai de bunda, cai de cara, cai de lado? Porque ele sabe fazer, mas a ansiedade e o estresse em níveis muito altos são comedores de desempenho — não só para eles, para todos nós.” Ele também retomou a ideia de que esse cérebro positivado não é segmentável por contexto: “É o que o Bruno sempre fala: o mesmo cérebro que eu jogo é o cérebro fora de quadra. Então, se eu positivo esse cérebro, acalmo esse cérebro durante o dia, ele tá sendo um Bruno mais legal, mais calmo com os amigos, mais humano com as pessoas.”
Por que o cérebro foca no negativo. Citando o psicólogo Rick Hanson, autor de O Cérebro de Buda, Giuliano explicou por que o cérebro humano tem uma propensão natural à negatividade — uma vantagem evolutiva em ambientes hostis do passado: “Ele explica por que o nosso cérebro é tão apaixonado por negatividade: é uma questão de sobrevivência. (…) Se a nossa tribo encontra uma árvore de manga, a glicose é importante, mas não é vital — questão de sobrevivência, ele nunca vai esquecer aquilo, mas pode até esquecer a árvore de manga. Se um penhasco caiu dentro da tribo, ou se alguém comeu uma planta tóxica, isso ele nunca esquece.”
O que faz pessoas de sucesso terem em comum. Questionada sobre o que ele identifica em comum entre seus clientes de alta performance, Giuliano apontou coragem, propósito e curiosidade: “São pessoas que têm muita coragem, muito propósito, muita curiosidade — pessoas abertas para o novo, que não acham que já sabem tudo ou que já conheceram tudo. São pessoas humildes, interessadas, que fazem perguntas.” Sobre o que prejudica essa performance, voltou ao tema do medo como elemento paralisante diante de decisões de risco — como expandir um negócio ou entrar em um mercado novo: “Se você não souber gerenciar esse medo dentro de você, ele vai te paralisar como empresário.”
Ferramentas para construir o super cérebro: meditação e música. Sobre as ferramentas comprovadas para “positivar” o cérebro, Giuliano voltou à meditação como a mais eficaz, mas destacou também o papel da música: “A música é uma das coisas que também mais desativa a amígdala, porque ela entra pelo tálamo — que processa o ambiente a 30, 40 milissegundos — e vai direto na amígdala.” Foi nesse contexto que apresentou os dois álbuns que lançou durante a pandemia, disponíveis no Spotify e Deezer — Positivo Sua Mente: Meditação e Lounge: “Uso com as minhas crianças desde quando nasceram — gestante, para escutar na barriga. São músicas super calmas, sem muitos instrumentos. (…) Minhas filhas, quando estão brincando, deixo o áudio contínuo, porque eu percebo que elas brigam menos, conflitam menos, ficam mais calmas.”
O exercício de contagem de respirações. Como em outras entrevistas, Giuliano ensinou ao vivo o exercício que considera a porta de entrada para a meditação — e contou que Bruno Rezende levou oito meses de preparação antes de conseguir meditar de fato: “Você vai contar essas inspirações na sua velocidade: inspira, expira, um; inspira, expira, dois… até chegar no 10. Se perder a conta, porque lembrou de alguma coisa, você volta para o zero. (…) Você está construindo um caminho neural para o foco.” Ele relatou o caso da Betina Roxo, ex-sócia da XP, como exemplo de alguém que achava não conseguir meditar e teve uma transformação rápida: “Ela chegou para mim: ‘Juliano, já testei todos esses métodos, não deu certo, meditação não é para mim.’ Eu falei: ‘Bem, me dá uma chance, vem comigo.’ (…) Ela fala: ‘Nossa, saio anestesiada, parece que eu tô vendo o ambiente de outras cores, a velocidade das coisas diminuiu, eu fico mais criativa.’ Ela tinha problema de insônia, melhorou a insônia dela.” Fez uma ressalva importante sobre quem não deveria praticar meditação sem acompanhamento: “A meditação não é recomendada para 100% da população. Existe uma parcela da população — esquizofrênicos, doentes mentais — que não estão aptos para fazer meditação; a meditação pode inclusive intensificar a doença da pessoa.”
A importância da pequena infância. Voltando a um tema recorrente em seu trabalho, Giuliano relacionou a formação do cérebro nos primeiros cinco anos de vida à forma como cada pessoa reage ao estresse na vida adulta: “Quase dois terços do cérebro do bebê vão estar formatados em cinco anos. (…) Crianças que nascem em lares mais disfuncionais, mais tóxicos, mais agressivos — se eu bater palma aqui quando você estiver dormindo, você vai se assustar muito mais. Ativação de amígdala não tem a ver só com o estímulo, tem a ver com o histórico daquela pessoa.” Ele indicou, mais uma vez, o livro A Bailarina de Auschwitz, de Edith Eger, como leitura essencial sobre esse tema — reforçando que ambientes “ricos e abastados” também podem ser emocionalmente negligentes: “Os lares mais amorosos e perfeitos, mesmo de pessoas ricas, às vezes não tinham um ambiente mega acolhedor, mega presente. Dinheiro não tem nada a ver com acolhimento na pequena infância.”
Saúde mental como “guarda-chuva”. Sobre a importância da terapia, Giuliano reforçou uma visão que já havia trazido em outras entrevistas — a de que nenhuma ferramenta isolada é suficiente: “Não tem como você falar de saúde mental sem falar em meditação. Você precisa de exercício físico — a OMS fala de 5 a 6 horas por semana. Se eu não fizer isso, eu vou estar perdendo saúde mental e emocional, e eu não vou conseguir repor isso com outras coisas, com remedinho, com terapia. Não é assim que funciona.” Destacou também o sono como um indicador precoce de problemas de saúde mental: “O sono é um bom balizador de início de doenças mentais e emocionais. Dormir 5 horas por noite não é saudável — e a gente às vezes vê as pessoas comemorando isso.”
O que falta nas empresas que investem em bem-estar. Provocado sobre por que muitas iniciativas corporativas de bem-estar (como bolsas de terapia e academia) têm baixa adesão, Giuliano fez uma analogia com a falta de educação nutricional do passado: “Quando você fala hoje ‘você precisa ter mais saúde mental e emocional’, as pessoas ficam confusas: para onde eu vou, por onde eu começo? Não adianta lançar um benefício de terapia de R$ 400 a sessão para todos os funcionários e 1% usar, porque você não mostrou para eles o porquê é importante.” Ele criticou jornadas de trabalho excessivas como contraproducentes para a criatividade: “Jornada de 14 horas — isso é científico — as pessoas ficam superburras, emburrecidas. (…) Você vai produzir, lógico, até os escravos produziam sob ameaça de morte. Mas é uma produção emburrecida, não é produção criativa; você não vai ter grandes saltos.” Defendeu, em vez disso, flexibilização de horários e priorização visível do bem-estar por parte da liderança — citando o exemplo do fundador de uma startup que bloqueia, na própria agenda aberta para a equipe, um horário fixo de terapia: “Quando os outros olham que ele separou aquela janela: ‘Olha, eu também tenho isso, pode ser importante para mim.'”
Encerramento. Para fechar a conversa, Giuliano voltou a indicar os dois álbuns de meditação disponíveis no Spotify e Deezer, o canal no YouTube Positivo Sua Mente — criado com Bruno Rezende durante a pandemia — e seus perfis no Instagram, LinkedIn e Facebook.
Entrevista exibida no 220 Podcast, com apresentação de Taiana D’Egmont. Convidado: Giuliano Milan, criador do Método Milan de Construção de Presença, que há mais de duas décadas traduz práticas contemplativas em ferramentas concretas de clareza, presença e desempenho sob pressão.
