15 de julho de 2026

Entrevista Café com ADM — Leandro Vieira

Entrevista Café com ADM — Leandro Vieira

Entrevista Café com ADM — Leandro Vieira. Meditação, Alta Performance e Liderança: O Método Mila, com Giuliano Milan. Programa: Café com ADM (Administradores.com). Apresentador: Leandro Vieira. Convidado: Giuliano Milan.

Introdução: trinta anos de aposta. Leandro Vieira apresentou Giuliano como especialista em alta performance nos negócios e nos esportes, que estudou Administração na Fundação Getúlio Vargas (FGV) — tendo cursado sete dos oito semestres no Brasil e um no exterior, sem posterior pedido de equivalência para a conclusão do diploma — e teve uma carreira promissora em marketing na Procter & Gamble antes de, ainda nos anos 1990, decidir seguir um caminho considerado improvável para a época: estudar e aplicar meditação e gestão do estresse para melhorar performance. Destacou o trabalho de Giuliano com o nadador Thiago Pereira — que tirou a prata em Londres 2012 na frente de Michael Phelps — e com a seleção masculina de vôlei, campeã olímpica no Rio em 2016.

Uma decisão considerada radical. Questionado sobre a virada de carreira, Giuliano contou que a decisão, em 1997, não foi bem recebida por sua família: “Eu lembro que meu avô, ele era um grande empresário do ramo de bebidas, ele achou que eu tava envolvido com drogas, porque naquela época, eu tinha dezoito anos, falar que ia explorar mais meditação…” Ele descreveu o ambiente da FGV na época — convivendo com nomes como o então ministro Guido Mantega, Jorge Paulo Lemann e Marcel Telles, da Brahma — e como, apesar do prestígio do ambiente, percebia um nível de ansiedade que o incomodava: “Eu lembro de sentir o ambiente muito ansioso. Eu falei: ‘Olha, e se eu investisse numa guinada de carreira e saísse de marketing e fosse entender mais sobre estresse e ansiedade, como a gente pode fazer uma melhor gestão?’ Porque estresse e ansiedade sempre foram, desde sempre, vilões de performance.” “Foi uma aposta. (…) Eu passei anos aí que até eu mesmo duvidava se eu tinha feito a decisão correta, mas hoje sou muito feliz que eu tive coragem de fazer isso.”

A origem racional do interesse por meditação. Ao ser perguntado sobre como conciliava seu perfil mais analítico com um tema normalmente associado à espiritualidade, Giuliano explicou que seu interesse nasceu de uma busca quase acadêmica: “O empurrão pra meditação, pra mim, no meu caso, também foi muito racional e técnico na época, porque eu acho que eu tenho esse lado intelectual forte. (…) Eu fui o primeiro colocado na FAAP, primeiro colocado na UNESP, um dos primeiros da GV, eu era o melhor aluno da GV.” Ele voltou a citar o livro que mudou sua trajetória — Criatividade nos Negócios, de dois professores ligados a Stanford — que entrevistava CEOs de grandes empresas sobre os fatores de sucesso: “Foi constante nessa pesquisa que eles fizeram: aparecia muito meditação, como se você não tomasse decisão só baseado na razão, mas também baseado na intuição. (…) Foi aí que começou a minha jornada.” Sobre a falta de embasamento científico da meditação naquela época — e ainda hoje, segundo ele —, foi direto: “Até hoje, em 2026, ainda é uma prática grandemente espiritual, porque ela tem a sua raiz não dentro das faculdades — não foi dentro de uma universidade que surgiu a meditação. (…) Quando as pessoas me perguntam: ‘Qual a sua formação na área da meditação?’ Eu digo espiritual.”

Anos de imersão e o nascimento do Método Mila. Giuliano contou que, ao deixar o Brasil sob o pretexto de um intercâmbio para aprender espanhol, na verdade foi se aprofundar em meditação, passando por diferentes escolas e tradições — todas fortemente religiosas: “Eram cursos muito dentro de dogmas religiosos, dogmas espirituais. Então você precisava mudar sua alimentação, ser vegetariano, numa linha — me mergulhei nessa linha por uns anos. Depois uma outra linha, uma outra linha.” A partir dessa pesquisa, ele desenvolveu o que chama de Método Mila de Construção de Presença: “Por mais que eu tivesse navegando por uma seara espiritual, eu tava buscando ali ferramentas que pudessem ajudar no dia a dia de pessoas que não viviam no mosteiro, ou que não viviam no topo da montanha, mas que viviam aqui embaixo, com família, conta pra pagar, boleto e etc.” Sobre como o método chegou ao mundo do esporte, ele destacou a vantagem de trabalhar com atletas em um ambiente televisionado, que permitia validar a técnica de forma visível: “Eu não vejo o empresário executivo atuando no dia a dia das negociações e das decisões que ele toma. (…) Agora o esporte ele é televisionado, então eu tive essa grande vantagem de criar um método e primeiro validá-lo de uma forma televisionada.”

Cérebro da sobrevivência x cérebro da presença. Giuliano apresentou o conceito central de seu método atual — uma reformulação, com nova nomenclatura, de ideias que já explorava em entrevistas anteriores sobre cérebro “negativado” e “positivado”: “Dentro do meu método, eu falo que a gente tem dois cérebros: o cérebro da presença e o cérebro da sobrevivência. (…) São três respostas clássicas que o cérebro de sobrevivência dá: ou você luta, ou você paralisa, ou você foge.” “Essas respostas mais requintadas que estão disponíveis na Terra somente à espécie humana, elas são muito recentes, elas têm duzentos mil anos. Em termos evolutivos, duzentos mil anos não é nada, é um cisco — é uma espécie que nem se consolidou.” Ele explicou por que esse cérebro primitivo é incompatível com as demandas de liderança e alta performance modernas, citando o exemplo de Jeff Bezos: “O cérebro da sobrevivência não é o cérebro, por exemplo, que o Jeff Bezos precisa na parte da manhã, que ele fala que ele toma duas, três decisões importantes por dia. (…) Ele é o maestro, ele não tá mais naquele dia a dia de fazer as coisas, ele tá tomando decisões importantes.”

O case Thiago Pereira x Michael Phelps. Um dos pontos altos da conversa foi o relato detalhado de como Giuliano trabalhou com o nadador Thiago Pereira nos meses anteriores a Londres 2012: “Thiago Pereira chegou pra mim três meses antes das Olimpíadas de Londres. (…) Pensou-se assim: se nada tem funcionado 100%, vamos tentar então algo novo.” Ele descreveu os exercícios mentais criados para o tempo de treino dentro da piscina — um ambiente sem estímulos externos — e contou uma sessão específica de preparação psicológica diante do favoritismo de Phelps: “Eu pedi pra ele escrever uma página, quais eram os motivos pelos quais o Phelps ganharia a medalha. Ele encheu a folha rapidamente. E aí eu virei e falei assim: ‘Quais são os motivos pelos quais o Thiago Pereira pode vencer o Phelps nessa prova?’ E houve um silêncio.” “Falei: ‘Thiago, quantas provas que o Phelps vai competir?’ (…) O Thiago só ia competir duas. (…) Ele vai inconscientemente se segurar. Você tem vantagem competitiva nesse sentido, cê pode se jogar e se matar mais do que ele na água naquele momento.” O resultado, segundo ele, comprovou o valor do trabalho mental: “O Thiago bateu o recorde, inclusive nesse dia, e ele ficou com a medalha de prata — não ficou com a medalha de ouro, mas o Phelps ficou em quarto lugar.”

Calma como habilidade construída, não traço de personalidade. Sobre como aplica o método hoje, majoritariamente com grandes empresários, Giuliano fez uma afirmação central de sua filosofia de trabalho: “Calma não é uma característica individual que você nasceu com ela. Calma pode ser construída. (…) O estado basal, o estado default do cérebro é o cérebro de sobrevivência. (…) Se eu ficar um mês relaxado e deixar de praticar os exercícios, eu perco aquele lugar e eu volto pro cérebro de sobrevivência.” Como exemplo prático, citou o trabalho atual com uma executiva de um grande banco brasileiro: “Exercícios que ela faz da mesa dela até a sala de reunião (…) você contrair os dedos dos seus pés e relaxar em paralelo à sua respiração, você contar os seus passos da mesa até a sua sala de reunião. São exercícios simples e bobos, mas são aqueles exercícios que vão tirando o seu cérebro da sobrevivência pra um cérebro da presença.”

Por que o cérebro reage da mesma forma a um boleto e a um leão. Giuliano retomou, com nova linguagem, um argumento recorrente em seu trabalho: a desproporção entre a resposta biológica do cérebro e as ameaças reais do mundo moderno: “Hoje em dia um feedback de um chefe meio torto, (…) você não conseguir pagar um boleto pra quem tá num lugar mais de sobrevivência, o seu corpo vai reagir dessa forma. (…) Ele não tá preparando você pra respostas inteligentes.”

A desigualdade no acesso à gestão emocional. Provocado sobre se esse método seria aplicável também à parcela da população que vive em situação de sobrevivência real — e não apenas percebida —, Giuliano reconheceu a limitação, mas defendeu o valor da ferramenta mesmo nesses contextos: “Em parcelas da população, essa parcela que tá no nível da sobrevivência física, da fome, eles estão operando no cérebro da sobrevivência mesmo. (…) É muito mais complicado fazer isso, por isso que a distribuição de renda, as diferenças sociais, a concentração de renda dificulta tanto isso.” Ele destacou o uso de redes sociais para democratizar o acesso ao conteúdo: “Eu recebo pessoas que falam assim: ‘Olha, eu diagnosticada com síndrome do pânico, na fila pra conseguir um psiquiatra, não conseguia, encontrei você, tô fazendo os exercícios da fase um, da fase dois, tenho melhorado drasticamente a minha vida.'”

O paradoxo das redes sociais. Sobre se viver em uma época mais ansiosa facilita ou dificulta seu trabalho, Giuliano foi categórico ao afirmar que esse cenário prejudica mais do que ajuda — porque o próprio formato das redes sociais treina o cérebro para a fragmentação: “Quando você está rodando o feed no Instagram, você está treinando o seu cérebro, porque tudo é treino. (…) Você tá aprendendo a vivenciar as coisas em 15 segundos. (…) É como se as redes sociais tivessem adoecendo o ser humano por treino.” “A gente quer uma história completa em 19 segundos. Não tem isso. (…) Da mesma forma que você fragmentou a sua atenção e ficou megaansioso por treino, eu vou te ensinar técnicas também usando o treino pra que você saia desse lugar.”

Estoicismo, religião e sabedoria atemporal. Questionado sobre as conexões entre seu método e tradições filosóficas como o estoicismo — e o conceito de ataraxia, a serenidade diante de eventos externos —, Giuliano fez uma reflexão sobre a permanência histórica da gestão emocional: “A gestão de estresse e ansiedade pra mim é atemporal. Eu brinco que se eu fosse lá na época dos egípcios, eles deviam também sofrer com o cérebro da sobrevivência. (…) Quais são as civilizações que mais avançaram? As que sabiam fazer melhor gestão do estresse e da ansiedade.” “A gente já tinha elementos de reunião em volta do fogo, o cantar. (…) É como se tivesse essa raiz dessas ferramentas de muitos milhares de anos que o ser humano foi descobrindo, além do fogo, outras ferramentas pra gente acalmar esse nosso fogo interno.”

Os bastidores do topo: bilionários e o “Olimpo financeiro”. Sobre seu trabalho com famílias de grande patrimônio no Brasil, Giuliano comentou que o sucesso financeiro extremo não garante, por si só, equilíbrio emocional: “Esse Olimpo financeiro que a gente acha que vai ser o Olimpo da paz, da tranquilidade, das relações humanas harmoniosas — não é bem essa a realidade.” Citou também o exemplo de Jeff Bezos sobre a importância da gestão do tempo e do sono para decisões estratégicas, e relatou o caso de um cliente de 77 anos, referência no setor da construção civil, que buscou seu trabalho após ler uma reportagem na Forbes.

A pirâmide da felicidade. Em resposta a uma reflexão de Leandro sobre empresários que escolhem não crescer além de determinado ponto, Giuliano introduziu o conceito de múltiplas “pirâmides” de sucesso: “Eu digo que tem a pirâmide do sucesso financeiro. (…) Mas a gente não tem uma pirâmide da felicidade. (…) De repente pode ser um cara que é funcionário de uma fazenda no interior de Minas Gerais — ele tá no topo de qualidade de vida porque ele vive no meio do mato, ele tá feliz, ele tem a família dele.” “Acho que quem chega no topo dessa pirâmide [financeira] começa a perceber que essa não é a única pirâmide que tem na vida.”

Exercícios práticos ensinados ao vivo. Para encerrar, Giuliano ensinou os dois exercícios da “fase um” de seu método, que aplica em qualquer entrevista ou palestra: “A musicalização do seu ambiente — eu tenho dois álbuns de música que eu criei pensando nisso, de tirar o cérebro da sobrevivência pro cérebro da presença. Coloca meu nome [Giuliano Milan] no Spotify, Deezer e tudo mais, você vai achar as músicas.” “O número dois é você vai contar dez respirações mentalmente. (…) Inspira, expira, um; inspira, expira, dois — tudo mentalmente, até você chegar no dez. (…) Se você perder a contagem, que é o esperado, (…) você volta pro zero.” “É como se cê tivesse desenvolvendo uma musculatura — que no cérebro não tem músculo, mas você perdeu a conta, você volta pro zero. Não é fracasso, cê tá treinando a sua atenção.”

Onde encontrar o trabalho de Giuliano Milan. Para fechar a conversa, Giuliano indicou seus perfis no LinkedIn, Instagram e TikTok, além do canal no YouTube Positiva Sua Mente, com entrevistas e vídeos mais longos. Destacou também seu trabalho com palestras corporativas e programas de imersão em quatro módulos para empresas.

Entrevista exibida no podcast Café com ADM (Administradores.com), com apresentação de Leandro Vieira. Convidado: Giuliano Milan, criador do Método Milan de Construção de Presença, que há mais de duas décadas traduz práticas contemplativas em ferramentas concretas de clareza, presença e desempenho sob pressão.