15 de julho de 2026

Entrevista Lugar de Potência — Ricardo Basaglia — 2022

Entrevista Lugar de Potência — Ricardo Basaglia — 2022

Aqui está o texto completo, corrido, pra colar no blog:

Entrevista Lugar de Potência — Ricardo Basaglia — 2022. Como Construir uma Mente de Alta Performance, com Giuliano Milan. Programa: Lugar de Potência. Apresentador: Ricardo Basaglia (Basa), CEO da Michael Page no Brasil. Convidado: Giuliano Milan, criador do Método Milan de Construção de Presença, que há mais de duas décadas traduz práticas contemplativas em ferramentas concretas de clareza, presença e desempenho sob pressão. Publicado em: 17 de novembro de 2022.

Quem é Giuliano Milan? Basaglia abriu o programa apresentando Giuliano como alguém apaixonado por performance, cérebro e pessoas, que começou a carreira aos 18 anos como estagiário na Procter & Gamble, mas logo identificou uma lacuna no mercado e passou a estudar tudo o que encontrava sobre bem-estar, saúde mental e performance. Aos 20 anos, deixou uma carreira promissora em marketing para se dedicar a entender o ser humano, viajando por diversos países e estudando meditação e criatividade. Hoje atua como mentor de atletas olímpicos, pilotos, executivos e empresários — entre seus clientes estão o empresário do Alok (Gabriel Lopes), Bruno Rezende (Bruninho, do vôlei), o nadador Thiago Pereira e a ex-sócia da XP Betina Roxo. Questionado se, desde criança, já demonstrava mais sensibilidade com as pessoas do que a média, Giuliano confirmou: “Eu já era representante de classe sempre fui, era aquele aluno responsável que levava os amigos que tinham entrado em briga na sala da diretora e aconselhando no caminho: ‘Poxa, calma, pensa, respira fundo.’ Da próxima vez. Eu tinha quatro, cinco anos, eu já tava nessa função.” Ele contou que entrou na escola um ano antes da idade usual — porque chorava na porta quando o irmão ia para a escola e ele não — e que, por essa antecipação, entrou na faculdade com 16 para 17 anos.

Hábitos da infância. Sobre a origem dessa sensibilidade, Giuliano voltou a hábitos da própria infância que, segundo ele, hoje são a base do método que aplica: “Eu gostava, com 5, 6 anos, de deitar na sala dos meus pais, colocar música clássica, fechar o olho, ficar deitado no chão sentindo a vibração da música. Eu lembro que eu entrava em estados mentais que hoje são muito próximos aos estados de meditação que eu entro.” Ele se descreveu como uma criança “estranha” — acordava cedo no domingo para assistir Pequenas Empresas, Grandes Negócios — e contou que, no ensino médio, pensava em seguir carreira diplomática, por sua facilidade em gerenciar conflitos e olhar para os dois lados de uma situação.

Primeiros anos no mundo executivo. Na Fundação Getúlio Vargas — que, segundo ele, formava apenas 150 alunos por ano e não tinha concorrência relevante na época — Giuliano teve aula com nomes como Guido Mantega e Henrique Meirelles. Foi observando a infelicidade de pessoas bem-sucedidas, incluindo seu próprio chefe na Procter & Gamble, que ele começou a questionar o caminho que estava seguindo: “Eu lembro que meu chefe tinha tido uma filha, ele ficou quase 15 dias sem ver, porque ele chegava lá ela tava dormindo. Ele falava: ‘Nossa, faz 15 dias que eu não vejo minha bebê.’ Eu pensava: caramba, isso não é aquilo que eu quero para mim.” “Você se mata por 20 anos para depois recuperar a felicidade que você perdeu em 20 anos. Não faz sentido isso, né?”

O que você aprendeu em cada lugar? Basaglia perguntou sobre os aprendizados de Giuliano em suas viagens pelo mundo estudando a mente humana. Ele voltou ao livro que mudou sua trajetória ainda na faculdade — Criatividade nos Negócios, de professores de Stanford — e descreveu a dificuldade de acessar meditação de forma dissociada de tradições religiosas na época: “Era como se a meditação fosse uma joia meio enfranhada dentro de alguns conceitos e preceitos. (…) Eu tive a sensação que eu tava com uma foice entrando num caminho que não existia, para buscar formar, por exemplo, assuntos ligados a qualidade de vida que não estava necessariamente nas grandes faculdades.” Fez cursos na Espanha, nos Estados Unidos (região de Oregon) e no Canadá, mas destacou que nunca perdeu o pé com o mundo prático: “Eu nunca perdi esse pé com o mundo prático e real. Não é uma pessoa que entrou na meditação e sumiu, virei monge, não. Eu sempre tive esse lado prático, esse lado de business.”

Como você enxerga o mundo? Questionado sobre a tendência do cérebro humano de se sentir pressionado diante do aumento de demandas do dia a dia, Giuliano voltou ao tema central de seu trabalho: como o cérebro funciona. Citou o médico indiano Srinivasan Pillay, de Harvard, especialista em medo e ansiedade, e explicou a lógica evolutiva da ameaça constante: “É como se o cérebro humano fosse a soma total de estruturas neurológicas que você tem presente em outras espécies. (…) Quando você pensa numa espécie de 150, 200 mil anos, como os cientistas falam, é uma espécie teste. Ela não é uma espécie que se consagrou.” “Esse nosso cérebro inconsciente que escaneia o ambiente 24 horas por dia só atrás de ameaças, ele trabalha numa velocidade de 30 a 40 milésimos de segundo. (…) O nosso cérebro consciente — esse que tá aqui nos escutando no podcast — ele é um cérebro que funciona a 400 milésimos de segundo. É 10 vezes mais lento.” Ele detalhou como esse cérebro primitivo só conhece três respostas possíveis diante de uma ameaça — paralisia, fuga ou ataque — e como isso se traduz, no mundo moderno, em reações desproporcionais a problemas cotidianos: “Se você tá com dificuldade de pagar o seu boleto, se você atrasou o seu cartão de crédito, é só essa resposta que ele vai te dar: morte. Seu cérebro só lida com ameaças o tempo todo.” Sobre o papel crescente da comparação social e das redes sociais nesse cenário, Basaglia levantou o ponto de que ninguém aprende, na escola, sobre autoconhecimento e gestão emocional — e Giuliano concordou: “A gente é vítima dessa falta de conhecimento. A gente não aprende nada de gestão emocional. Eu não aprendi na minha casa, meus pais não me ensinaram gestão de estresse, ansiedade. Não aprendi isso nas escolas, não aprendi isso nas melhores universidades que eu frequentei.” Ele também citou o livro Motivação 3.0, de Daniel Pink, para explicar por que o mundo do trabalho atual exige um cérebro mais criativo — já que tarefas repetitivas estão cada vez mais automatizadas — e por que estresse e ansiedade em excesso são, segundo ele, “o grande comedor e vilão de performance em todas as áreas”.

A importância da pequena infância. Ao ser questionado sobre o peso relativo entre genética, ambiente e aprendizado na formação do cérebro, Giuliano voltou a um argumento que já havia explorado em outras entrevistas — o de que dois terços do cérebro humano se formam fora do útero: “A gente nasce com meio quilo de cérebro — a média de um bebê — e depois de pouco a gente tem 1,5 kg de cérebro. (…) Mais importante do que dar Harvard para o seu filho, ou mais tempo, é dar cinco anos de muito apoio, amor, presença e paz. Isso faz toda a diferença para que você tenha uma formatação de um cérebro mais saudável.” Ele defendeu que países desenvolvidos deveriam priorizar investimento público nos primeiros cinco anos de vida, já que, segundo ele, há “janelas” de desenvolvimento que não se repetem.

Como melhorar o cérebro? Basaglia perguntou que atitudes práticas levam à construção desse “Super Cérebro”.

Giuliano voltou a exemplos de atletas com quem trabalhou — Bruninho, Lucão, Éder e Lucarelli na preparação para a Olimpíada do Rio, e o nadador Thiago Pereira na preparação para Londres, na disputa contra Michael Phelps nos 400m medley: “O nosso cérebro como eu disse, ele é uma máquina das mais inteligentes, que cria todas as outras máquinas, mas focada em escanear estresse e ansiedade. É como se ele tivesse uma preferência por estresse e ansiedade.” Citou também o livro de Daniel Pink sobre motivação humana para explicar a evolução histórica do trabalho — da escravidão à liberdade de escolha — como um paralelo para entender como ambientes mais seguros tornam o cérebro mais criativo: “Quando você aumenta a liberdade, aquele cérebro começa a executar cada vez mais, ser mais inteligente, economia de energia. (…) Mas ainda é um cérebro que tem o bias dele totalmente para estresse, ameaça constante.” Sobre a sustentabilidade dos ganhos de performance, foi direto: “Se ele parar por uma semana — que nem você parar de fazer exercício físico, você perde seu bíceps, você perde a musculatura —, porque não é o estado natural. O estado natural é ansiedade, negatividade.”

Como sair do modo sobrevivência? Perguntado sobre as ferramentas comprovadas para tirar o cérebro do modo de sobrevivência, Giuliano apontou a meditação como a principal, mas também destacou o papel do contato com a natureza — real ou apenas visual: “É como se a meditação ela desativasse as amígdalas cerebrais, que são ativadas 24 horas por dia com todos esses estímulos do mundo moderno. (…) Não é à toa que hoje em dia sede dessas empresas de tecnologia americanas parecem aqueles parques temáticos da Disney, com cachoeira debaixo da cadeira do trabalho.” “Nosso cérebro não sabe diferenciar aquilo que é uma imagem e aquilo que é real. (…) Uma imagem de uma cobra, de uma aranha, vai ativar igualzinho o cérebro como se fosse uma cobra, uma aranha real.”

Sono, alimentação e o mito da produtividade sem descanso. Sobre hábitos de vida saudáveis, Giuliano defendeu uma visão de “guarda-chuva”, em que nenhuma prática isolada resolve por si só, e questionou a ideia de que é possível ser produtivo dormindo pouco: “É um aglomerado de ações. (…) Quando você coloca essas pessoas para dirigir entre os cones, elas batem. Não quer dizer que a pessoa fala que de fato está acontecendo — a pessoa achar que ela está bem e estar bem são duas coisas diferentes.”

Como manter o foco? Basaglia perguntou sobre a dificuldade crescente de manter o foco na era da informação fragmentada. Giuliano respondeu que isso também é treino — só que na direção errada: “Nosso cérebro é treinado para ser multifocal e fragmentado. (…) Tudo que você faz de forma repetida vai treinando o seu cérebro. Se você tá aqui comigo olhando alguma coisa, olhando o celular, você tá trabalhando muito focal — então seu cérebro vai estar especializado nisso.” Ele então ensinou, ao vivo, o exercício que aplica com todos os seus clientes — a contagem de respirações: “Você vai mentalmente: inspira, expira, um; inspira, inspira, dois… A ideia é essa: não precisa ser uma respiração mais forte, é você contar de 10 a 15 respirações. A questão é o seguinte: perdeu a conta, volta para o zero. (…) Toda vez que você esquecer a contagem e voltar, você tá criando um caminho neural para ter mais foco.” Como exemplo de progressão, contou que Bruno Rezende levou cerca de um ano para alcançar um estado de meditação mais profundo, mas hoje consegue meia hora de meditação com facilidade.

Saúde mental. Sobre a crescente visibilidade do tema saúde mental, especialmente após a pandemia, Giuliano fez uma observação importante sobre burnout: “Ninguém tem burnout da noite pro dia. (…) Burnout não se cura com férias. É como se você falar assim: eu vou comer o ano todo e depois vou ficar 30 dias sem comer, você não vai repor. Não é assim que você faz: é equilíbrio.” “A gente está no auge da humanidade que quis ignorar isso, focada em QI, em atingir riqueza, e deixar o emocional como se ele não existisse.”

Mudança de ambiente. Questionado sobre como lidar com ambientes tóxicos — no trabalho ou na família —, Giuliano evitou uma resposta simplista: “Eu acho que é um caminho muito superficial você falar ‘ambiente tóxico’, porque também tem a sua parcela de participação. (…) Ninguém é só vítima, não é verdade, não existe isso. Não existe ambiente perfeito que vai te poupar de trabalhar o seu cérebro para que ele seja positivo.” “É mais fácil você focar em tirar o seu cérebro desse lugar, desse modo operante, do que você querer mudar todo o seu ambiente.”

Procrastinação e disciplina. Sobre procrastinação, Giuliano trouxe uma visão pouco convencional: para ele, procrastinar costuma ser um sinal de que a atividade em questão não faz sentido para a pessoa, ou que o plano de ação foi mal construído: “Eu não preciso me forçar a fazer nada, porque eu amo o que eu faço. (…) Eu acho que procrastinação pode ser um belo sinal do que você está fazendo ali.” “Eu conheço pessoas que falam assim: eu preciso me exercitar 5 horas da manhã, corrida todos os dias. Desculpa, se eu fosse funcionário dessa empresa, não ia gostar, eu ia ficar revoltado e ia procrastinar. Ela criou um plano de ação péssimo.” Mas fez uma ressalva importante, alertando contra banalizar o tema quando há questões mais profundas envolvidas: “Tem pessoas que têm problema de saúde mental e emocional. (…) Aí você vai falar para ela: não, você é muito preguiçosa, falta disciplina. A pessoa vai se sentir… (…) A gente tá querendo é a mesma coisa de chegar e falar: qual que é o meu problema? Não tem como você pegar uma coisa só e achar que você acertou na mosca.”

Intuição. Sobre o papel da intuição em seu trabalho, Giuliano a descreveu como fruto de exposição a múltiplas fontes de estímulo, e não de um dom místico: “Você vai municiar o seu consciente, inconsciente, com muitas informações. (…) Em estado de meditação, ele organiza essas informações e me dá salto de criatividade.” “A força não resolve, ela só atrapalha. (…) É nesse período de devaneio, ou meditar, que você vai organizar as ideias do seu cérebro — vai te dar esse salto de solução, não pensando só no problema.”

Ego. Sobre como lidar com a vaidade e o ego à medida que se cresce profissionalmente, Giuliano voltou à meditação, citando seu efeito sobre o córtex cingulado anterior — área associada à compaixão: “Não é à toa que pessoas que meditam — se você tem testes científicos, a pessoa assiste um filme de terror que vai ficar ansiosa, e outra pessoa que medita fica relaxada — (…) eu vou estar muito mais propenso a achar soluções que são boas para todo mundo do que aquelas soluções destrutivas que parecem ser boas só para um.”

Conhecimento técnico x emocional. Provocado sobre a hegemonia do conhecimento técnico sobre o emocional na formação profissional, Giuliano citou um dado da pesquisa da Michael Page (empresa de Basaglia): “91% dos profissionais são contratados por habilidades técnicas e depois demitidos por questões comportamentais. Mas a gente vive no mundo onde menos de 1% dos módulos de MBA, graduação, pós-graduação, mestrado, são focados em soft skills.” Citou a Itália — em especial o método pedagógico da região da Emília-Romanha — como referência mundial em educação infantil voltada à criatividade e ao desenvolvimento emocional.

Licença para ser pai? Retomando um argumento que já havia feito em outras entrevistas, Giuliano defendeu, de forma provocativa, que no futuro a parentalidade deveria ser regulada com mais rigor: “No futuro você não vai poder ser pai quando você quiser, da mesma forma que você não pode sair dirigindo porque você acha que tem direito de dirigir. Você vai ter que ter licença para ser pai. Tenho certeza absoluta — numa questão de 100 anos você vai ver uma licença para paternidade com acompanhamentos constantes.” “Por que que a gente tá tão preocupado em dirigir um automóvel, que pode matar pessoas, do que criar pessoas disfuncionais, que podem matar muito mais pessoas?”

Momento Red Hunter. Nesse bloco de perguntas rápidas sobre recrutamento — característico do podcast de Basaglia, que é headhunter —, Giuliano contou o que mais valoriza ao contratar alguém para sua equipe: “Eu gosto de saber qual o propósito de vida da pessoa: por que que ela tá viva, o que que ela tá fazendo, o que que ela quer fazer aqui. (…) Pessoas muito egoístas, pessoas que não sabem trabalhar em grupo, porque elas atrapalham um grupo.” Citou um exemplo do próprio Bernardinho, técnico da seleção de vôlei, sobre como a habilidade técnica isolada não compensa um ambiente de equipe tóxico: “Você tem um cara que é sensacional numa posição, ataca como ninguém, mas no vestiário ele é aquele cara que irrita todo mundo, que traz um clima de desarmonia. Esse cara tem um custo na sua empresa gigantesco — esse cara não vale os pontos que ele dá no jogo.”

Otimismo sobre o futuro do trabalho. Questionado sobre o futuro da gestão emocional nas empresas, Giuliano se declarou otimista, comparando a resistência atual a temas como saúde mental com a resistência histórica a mudanças de hábito como a proibição de fumar em aviões: “Meu avô morreu achando um absurdo não poder mais fumar dentro do avião. (…) Qualquer pessoa que escuta isso vai dar risada, mas ele viveu numa época onde grávidas fumavam, as propagandas de cigarro eram associadas a esporte.” Ele também destacou o papel da liderança na transformação cultural das empresas: “Quando isso não me importava, ou tava completamente fora do meu radar, era só cobrar — era mais fácil do ponto de vista estrutural. (…) Eu costumo dizer que as empresas estão tão focadas no resultado que esquecem de focar no que dá resultado.”

Bloco “Dona Ângela” — frases rápidas. Convidado a completar frases espontaneamente, Giuliano definiu o riso como uma ferramenta de saúde mental e “um grande mecanismo de resfriamento do cérebro”, e descreveu a si mesmo como “esquisito porque fala de um tema que as pessoas nunca ouviram falar”. Sobre situações inusitadas em sua trajetória, relembrou a reação da própria família quando decidiu abandonar uma carreira promissora para se dedicar à meditação: “Minha família inteira achou que eu tava doente, que eu tinha entrado numa seita, que eu tava usando drogas. Meu avô achava que eu tava usando drogas. Você sai de uma faculdade de ponta, de uma empresa de ponta, e vai falar: não, vou focar em qualidade de vida e meditação. Em 96, virou bicho grilo; em 98, não tive apoio, zero.”

Lugar de potência: onde Giuliano se sente mais forte. Em referência ao nome do podcast, Basaglia perguntou em que tipo de situação Giuliano sente que está em seu próprio “lugar de potência”: “O maior nível de estresse e ansiedade, para mim, não me assusta. (…) Eu tenho total gestão daquela situação. (…) Eu sou um cara muito bom para essas horas de grandes combates.”

Reconhecendo o limite do mentorado. Sobre como saber até onde pressionar um cliente sem ultrapassar limites saudáveis, Giuliano admitiu que não há fórmula fixa: “Acho que aí vem muito da intuição, de você usar a sua sensibilidade para saber ler a situação. (…) Não existe fórmula nessas horas.”

Uma verdade que as pessoas não costumam dizer. Convidado a compartilhar uma verdade pouco falada sobre o sucesso, Giuliano foi direto: “Gestão de estresse e ansiedade é mais vital que o ar que se respira. Não tem como você viver a sua vida sem pensar nesse assunto.” Ele criticou a ideia de que inteligência emocional significa não sentir as próprias emoções: “Muitas vezes as pessoas confundem: quem tem inteligência emocional é a pessoa que não sente, né? Assim, eu tô acima do bem e do mal. As pessoas querem comprar uma borracha psicológica para apagar os sentimentos que incomodam, e isso não existe.”

Estoicismo. Sobre seu interesse por Marco Aurélio e o estoicismo, Giuliano fez uma reflexão sobre a permanência das emoções humanas através do tempo: “Daqui a dois mil anos, três mil anos, esses livros vão estar superatualizados, porque vai ter sempre isso. (…) Medo, raiva, são emoções humanas, elas são eternas.” E voltou à ideia de que a meditação funciona elevando o nível de observação acima do problema, citando uma frase atribuída a Einstein: “Dificilmente se resolve um problema complexo no mesmo ambiente que ele foi criado. (…) Meditação significa: se abaixar isso aqui, subir. Você vê as coisas de cima — lá tem a solução, não tá no mesmo nível do problema.”

Indicações de livros. Convidado a indicar conteúdos para um futuro convidado do podcast, Giuliano voltou a citar Andrew Newberg (sobre o impacto neurológico da fé), Srinivasan Pillay (sobre medo e ansiedade) e, mais uma vez, destacou A Bailarina de Auschwitz, de Edith Eger, como uma de suas obras favoritas — relatando como ainda hoje pesquisa relatos de sobreviventes do Holocausto disponíveis em acervos públicos para entender melhor os mecanismos de resiliência emocional pós-trauma.

O que é felicidade? Para encerrar o bloco mais filosófico da conversa, Basaglia perguntou a definição de felicidade de Giuliano. Ele citou o livro O Cérebro de Buda (do psicólogo Rick Hanson) e descreveu a felicidade como um estado basal alcançável através da prática constante: “Eu vejo que a meditação, quando eu começava a meditar, eu entrava em estado de felicidade, mas depois de tanto tempo meditando é como se aquele estado fosse constante — eu ganhei aquele estado durante o dia a dia. É um estado de flow, é um estado onde você sente que você tem um propósito de vida.” “Tenho medo, tenho raiva, tenho todos os sentimentos, mas tem aquela felicidade basal que ela existe. (…) O super cérebro te garante, quando construído, um estado de emoções muito agradáveis para você viver.”

Projetos e onde encontrar Giuliano Milan. Para encerrar, Giuliano indicou seus dois álbuns de música voltados à meditação e ao sono, disponíveis no Spotify e em outras plataformas, e contou que costuma usá-los em casa com as próprias filhas, observando uma redução em conflitos entre elas durante brincadeiras. Indicou também o canal no YouTube Positivo Sua Mente, criado em parceria com Bruno Rezende durante a pandemia, e adiantou planos futuros de palestras e cursos de imersão sobre o método “Super Cérebro”.

Entrevista exibida no podcast Lugar de Potência, com apresentação de Ricardo Basaglia. Convidado: Giuliano Milan, criador do Método Milan de Construção de Presença, que há mais de duas décadas traduz práticas contemplativas em ferramentas concretas de clareza, presença e desempenho sob pressão.