15 de julho de 2026

Entrevista Lutz Podcast #127 — 2023

Entrevista Lutz Podcast #127 — 2023

Giuliano Milan iniciou a conversa contando que sua paixão pelo ser humano e pelo funcionamento do cérebro surgiu ainda na adolescência. Desde muito jovem, buscava compreender como a mente humana funcionava e como seria possível utilizar melhor o potencial do cérebro. Na época, antes da popularização da internet, uma de suas principais fontes de informação era a revista Super Interessante, onde encontrava conteúdos sobre neurociência e comportamento humano. Ainda muito novo, ingressou na Fundação Getúlio Vargas entre os primeiros colocados nos vestibulares e optou pelo curso de Administração de Empresas por entender que, mesmo sem saber exatamente qual profissão seguir, queria trabalhar com pessoas. Durante a graduação teve contato com áreas como psicologia, antropologia e sociologia, mas foi a leitura de um livro sobre criatividade nos negócios, escrito por professores da Universidade de Stanford, que mudou completamente sua trajetória. Ao perceber que muitos CEOs associavam criatividade a práticas como meditação, espiritualidade, yoga e fé, decidiu estudar esses temas sob uma perspectiva científica.

No final da década de 1990, Giuliano morou no Canadá e posteriormente na Europa para aprofundar seus estudos sobre meditação. Segundo ele, naquela época essa prática ainda era fortemente associada a tradições espirituais, principalmente ao budismo e ao hinduísmo. Com o passar dos anos, desenvolveu um método próprio de meditação, desvinculado de qualquer religião ou crença específica. Ele explica que respeita todas as formas de espiritualidade, mas prefere trabalhar apenas com a técnica, permitindo que cada pessoa mantenha suas próprias convicções. Seu método combina conhecimento teórico sobre o funcionamento do cérebro consciente e inconsciente com exercícios práticos desenvolvidos de forma progressiva.

Como exemplo, contou que o jogador Bruninho, capitão da seleção brasileira de vôlei, levou aproximadamente dois anos para conseguir meditar durante vinte minutos. Antes disso, realizou diversos exercícios mentais de preparação, tanto de olhos abertos quanto fechados, até que seu cérebro estivesse preparado para alcançar um estado meditativo. Giuliano compara esse processo ao treinamento físico. Da mesma forma que ninguém levanta cem quilos na academia logo no primeiro dia, também não é possível desenvolver uma boa prática de meditação sem treinamento gradual. Segundo ele, muitas pessoas acreditam que meditação não funciona simplesmente porque começaram em um ritmo muito acima do que o cérebro consegue acompanhar.

Ele também relatou o caso de Betina Roxo, ex-sócia da XP, que dizia não conseguir permanecer parada nem por poucos instantes. Após aplicar sua metodologia, ela passou a realizar exercícios simples de respiração e, posteriormente, conseguiu meditar de maneira consistente. Para Giuliano, meditação não é algo complexo ou místico. Trata-se apenas de encontrar um estado intermediário entre estar completamente acordado e estar dormindo, permitindo que o cérebro alcance padrões de funcionamento semelhantes às ondas cerebrais observadas durante a meditação.

Ao ser questionado sobre quando os benefícios começam a aparecer, Giuliano respondeu que não existe uma mudança isolada para uma única área da vida. O cérebro que atua no trabalho é exatamente o mesmo cérebro que participa dos relacionamentos, da vida familiar e de todas as outras atividades. Por isso, qualquer transformação promovida pela meditação acaba refletindo em diversos aspectos da vida da pessoa. Em vez de melhorar apenas o desempenho profissional ou esportivo, a prática gera mudanças estruturais que impactam a forma como cada indivíduo lida com o mundo.

Nesse momento da entrevista, Giuliano apresentou um dos principais conceitos de seu trabalho: o cérebro negativado e o cérebro positivado. Segundo ele, o estado natural do ser humano é o cérebro negativado. Isso acontece porque nossa estrutura cerebral foi moldada ao longo da evolução para identificar riscos e garantir a sobrevivência da espécie. As regiões mais primitivas do cérebro funcionam como um sofisticado sistema de detecção de ameaças, analisando constantemente tudo o que acontece ao nosso redor em uma velocidade muito superior ao pensamento consciente.

Enquanto o pensamento racional leva centenas de milissegundos para interpretar uma situação, o cérebro inconsciente faz esse processamento dezenas de vezes mais rápido, procurando qualquer sinal que represente perigo. Seu único objetivo é manter o corpo vivo, independentemente da qualidade dessa vida. Giuliano explica que esse sistema foi extremamente importante para a sobrevivência da humanidade durante milhares de anos, quando os riscos eram concretos, como predadores, doenças ou escassez de alimentos. Entretanto, no mundo moderno, esse mesmo mecanismo continua funcionando da mesma maneira, interpretando situações cotidianas como se fossem ameaças reais à sobrevivência.

Como exemplo, ele cita preocupações financeiras, problemas no relacionamento, dificuldades no trabalho ou até mesmo a perda de um emprego. Embora essas situações não representem risco imediato de morte, o cérebro inconsciente reage como se a vida estivesse em perigo, acionando respostas automáticas de estresse. Esse funcionamento constante faz com que muitas pessoas permaneçam em estado permanente de alerta, ansiedade e tensão, mesmo quando não existe nenhuma ameaça concreta ao seu redor.

Giuliano também recomendou algumas obras que influenciaram seu trabalho, entre elas os livros Life Unlocked, de Srinivasan Pillay, e Buddha’s Brain, de Rick Hanson. Segundo ele, ambos demonstram como grande parte da ansiedade experimentada pelas pessoas acontece de forma inconsciente, antes mesmo que o cérebro racional tenha consciência do que está acontecendo.

No cérebro em modo de sobrevivência existem apenas três respostas possíveis diante de qualquer ameaça: paralisar, fugir ou enfrentar. Essas estratégias funcionavam perfeitamente quando o ser humano precisava escapar de animais selvagens ou enfrentar perigos físicos. O problema é que hoje esse mesmo sistema responde da mesma forma diante de boletos, problemas profissionais, conflitos familiares ou qualquer situação que gere insegurança emocional. Para Giuliano, vivemos em uma sociedade repleta de estímulos que mantêm nosso cérebro permanentemente ativado em estado de sobrevivência.

Segundo ele, a única maneira de reduzir esse funcionamento automático é criar, de maneira consciente e constante, um ambiente capaz de induzir o cérebro a estados de maior tranquilidade. Isso pode ser feito por meio da música, do contato com a natureza, da organização dos ambientes, dos aromas, da arquitetura e de diversos outros estímulos sensoriais. Giuliano explica que utiliza músicas específicas desenvolvidas para meditação e sono justamente para influenciar o cérebro inconsciente, conduzindo-o gradualmente para estados mais calmos e equilibrados. Ele acredita que, assim como sons negativos podem aumentar o estado de alerta, sons cuidadosamente desenvolvidos podem promover relaxamento e segurança.

Além disso, destaca a importância do sono, da alimentação e da hidratação para manter o cérebro funcionando adequadamente. Relatou o caso de uma atleta do time de Bernardinho que tinha o hábito de dormir e acordar assistindo noticiários. Após substituir esse hábito por conteúdos mais tranquilos, percebeu uma mudança significativa na qualidade de vida, no humor e na sensação geral de bem-estar.

Durante a conversa, Giuliano aprofundou a relação entre o estresse e a formação do cérebro humano. Segundo ele, grande parte da maneira como reagimos aos desafios da vida adulta é construída nos primeiros anos de vida. Ele explica que aproximadamente dois terços do cérebro se desenvolvem fora do útero e que esse desenvolvimento acontece em contato direto com o ambiente, principalmente por meio das experiências vividas com os pais e cuidadores. Tanto situações de violência quanto a ausência de afeto influenciam profundamente a formação do cérebro. Em muitos casos, a falta de carinho e acolhimento pode causar impactos emocionais tão intensos quanto experiências traumáticas mais evidentes.

De acordo com Giuliano, uma criança ainda não possui mecanismos internos suficientes para regular suas emoções sozinha. Nos primeiros anos de vida, ela depende do cérebro dos pais para ajudá-la a retornar ao estado de equilíbrio sempre que enfrenta situações de medo, insegurança ou desconforto. Essa construção emocional forma a base sobre a qual o cérebro responderá ao estresse ao longo de toda a vida.

Ele explica que isso também ajuda a entender por que pessoas diferentes reagem de maneiras completamente distintas diante da mesma situação. Como exemplo, citou atletas de altíssimo rendimento com quem trabalhou durante anos, como Bruninho, Éder, Lucão e Lucarelli. Embora todos enfrentassem exatamente a mesma pressão em uma final olímpica, cada um apresentava uma resposta emocional diferente. Segundo Giuliano, isso ocorre porque cada indivíduo carrega uma história de vida única, que influencia diretamente a intensidade com que seu cérebro interpreta sinais de ameaça e pressão.

Ao falar sobre alta performance, Giuliano procurou desconstruir a ideia de que viver no mais alto nível de desempenho significa viver melhor. Para ele, existe uma romantização muito grande em torno do sucesso extremo. Muitas pessoas enxergam a alta performance como um estado permanente de felicidade, quando na realidade ela representa um ambiente de enorme exigência física, emocional e mental. Ele compara esse cenário ao topo do Monte Everest. Embora alcançar o cume seja uma grande conquista, ninguém permanece lá por muito tempo. O topo é um lugar hostil, onde a permanência é limitada. Da mesma forma, momentos de máxima performance são temporários. A verdadeira vida acontece no cotidiano, onde estão presentes as relações familiares, o descanso, o aprendizado e os desafios comuns enfrentados por qualquer pessoa.

Segundo Giuliano, mesmo atletas mundialmente reconhecidos, empresários de sucesso e grandes líderes continuam sendo seres humanos sujeitos às mesmas emoções, inseguranças e dificuldades que qualquer outra pessoa. O dinheiro, a fama ou o reconhecimento público não eliminam a vulnerabilidade humana. Eles apenas mudam o contexto em que os desafios acontecem.

Quando questionado sobre felicidade, Giuliano respondeu que sua definição está diretamente ligada ao crescimento pessoal. Para ele, felicidade não significa ausência de sofrimento, mas sim a capacidade de transformar cada experiência em aprendizado. Sempre que consegue extrair crescimento, maturidade e evolução de uma situação difícil, sente que está vivendo de forma plena. Já quando permanece preso ao sofrimento sem conseguir aprender algo com aquela experiência, entende que está se afastando desse estado de felicidade.

Ele também afirmou que encontra felicidade ao compartilhar conhecimento e ao aprender continuamente. Participar de conversas, ministrar aulas, produzir conteúdos e trocar experiências com outras pessoas faz parte desse processo constante de crescimento. Segundo ele, aprender e ensinar são atividades que se complementam e alimentam seu propósito de vida.

Durante esse trecho da entrevista, Giuliano voltou a citar Bruninho como exemplo. Muitas pessoas acreditam que atletas consagrados vivem livres de problemas emocionais, mas a realidade é completamente diferente. Assim como qualquer pessoa, eles enfrentam inseguranças, momentos difíceis, dúvidas e sofrimento. A diferença está apenas no contexto em que esses desafios acontecem.

Um dos momentos mais marcantes da conversa foi quando o assunto passou a ser educação e paternidade. Giuliano afirmou que a humanidade ainda está aprendendo a educar seus filhos de maneira saudável. Segundo ele, durante grande parte da história, as pessoas apenas repetiram padrões recebidos das gerações anteriores, muitas vezes marcados por violência, ausência emocional e falta de conhecimento sobre desenvolvimento infantil.

Na sua visão, existe um ciclo de sobrevivência que atravessa gerações. Pais que cresceram em ambientes emocionalmente difíceis tendem, muitas vezes sem perceber, a reproduzir os mesmos comportamentos com seus próprios filhos. Romper esse ciclo exige consciência, informação e disposição para mudar. Caso contrário, os mesmos padrões continuam sendo transmitidos de geração em geração.

Giuliano explicou que o cérebro infantil percebe o tempo de forma completamente diferente do cérebro adulto. Um único dia para uma criança pode representar uma experiência emocional equivalente a vários dias para um adulto. Da mesma forma, um grito, uma humilhação ou um momento de rejeição têm um impacto muito mais intenso durante a infância, justamente porque o cérebro ainda está em processo de formação e absorve essas experiências como referência para toda a vida.

Ele defende que, no futuro, a sociedade provavelmente dará muito mais importância à preparação para a parentalidade. Assim como hoje é necessário obter habilitação para dirigir um automóvel, acredita que um dia também haverá maior conscientização e acompanhamento sobre a responsabilidade de educar uma criança. Sua intenção não é limitar a liberdade das pessoas, mas destacar o enorme impacto que uma criação saudável pode gerar não apenas na vida de um indivíduo, mas em toda a sociedade.

Ao refletir sobre a realidade brasileira, Giuliano relacionou o elevado número de casos de ansiedade, depressão e outros transtornos emocionais às experiências vividas durante a infância. Para ele, muitas dessas dificuldades têm origem em padrões emocionais estabelecidos nos primeiros anos de vida, quando o cérebro ainda está formando suas principais estruturas de regulação emocional. Esse processo ajuda a explicar por que tantas pessoas chegam à vida adulta convivendo com níveis elevados de estresse sem sequer perceberem que permanecem constantemente em estado de sobrevivência.

No encerramento da entrevista, Giuliano respondeu a algumas perguntas enviadas pelo público. Uma delas abordava a possibilidade de utilizar meditação com adolescentes dentro do espectro autista. Ele foi cauteloso ao responder, destacando que não é especialista nesse tipo de acompanhamento e que qualquer intervenção deve ser realizada com orientação de um neuropediatra ou outro profissional habilitado. No entanto, ressaltou que a musicalização é um recurso praticamente universal. Segundo ele, determinados sons conseguem acessar diretamente o cérebro inconsciente, favorecendo estados de maior calma, relaxamento e equilíbrio emocional, independentemente da idade.

Questionado sobre quais livros mais influenciaram sua visão sobre comportamento humano, cérebro e desenvolvimento pessoal, Giuliano indicou três obras que considera fundamentais. A primeira é Como Deus Pode Mudar a Sua Mente, de Andrew Newberg, que aborda a relação entre espiritualidade, práticas contemplativas e neurociência. A segunda é Life Unlocked, de Srinivasan Pillay, livro que explora como sair do modo de sobrevivência para desenvolver uma vida com mais criatividade, clareza e bem-estar. A terceira indicação é A Bailarina de Auschwitz, de Edith Eger, considerada por ele uma das leituras mais marcantes de sua vida.

Ao comentar essa última obra, Giuliano destacou que a história demonstra como mesmo pessoas que passaram por experiências extremamente traumáticas podem reconstruir suas vidas. Segundo ele, o livro transmite uma mensagem poderosa sobre resiliência, mostrando que é possível encontrar qualidade de vida, propósito e crescimento mesmo depois de enfrentar situações extremamente difíceis. Essa visão está totalmente alinhada com sua filosofia de trabalho, baseada na capacidade do cérebro humano de se adaptar, aprender e evoluir ao longo da vida.

Durante toda a entrevista, Giuliano reforçou a ideia de que o cérebro não foi projetado para proporcionar felicidade constante, mas sim para garantir a sobrevivência da espécie. Por isso, permanecer em estado permanente de alerta é algo natural do funcionamento cerebral. No entanto, ele acredita que, por meio de práticas conscientes, é possível ensinar o cérebro a sair gradualmente desse modo automático de sobrevivência, desenvolvendo uma mente mais equilibrada, resiliente e preparada para lidar com os desafios da vida moderna.

Segundo ele, esse processo não acontece da noite para o dia. Assim como qualquer treinamento físico exige repetição, disciplina e constância, o treinamento mental também depende de prática contínua. Pequenas mudanças realizadas diariamente podem produzir grandes transformações ao longo do tempo. Hábitos relacionados ao sono, alimentação, respiração, contato com a natureza, organização dos ambientes, qualidade das informações consumidas e prática da meditação contribuem para que o cérebro passe a interpretar o mundo com menos ameaça e mais segurança.

Giuliano também ressaltou que não existe uma fórmula única para todas as pessoas. Cada indivíduo possui uma história de vida diferente, uma bagagem emocional própria e formas particulares de responder ao estresse. Por isso, o processo de desenvolvimento precisa respeitar as características individuais de cada pessoa, sem comparações ou expectativas irreais.

Ao longo da conversa, ficou evidente que seu trabalho vai muito além da meditação. Sua proposta consiste em compreender como o cérebro humano funciona para criar estratégias práticas capazes de melhorar a qualidade de vida, fortalecer a presença, reduzir os efeitos do estresse crônico e ampliar a capacidade de tomar decisões conscientes. O foco está em ajudar as pessoas a deixarem de viver apenas reagindo aos estímulos do ambiente e passarem a agir de forma mais equilibrada e intencional.

Para finalizar, Giuliano convidou o público a acompanhar seu conteúdo nas principais plataformas digitais, onde compartilha reflexões, entrevistas, materiais educativos e músicas desenvolvidas especialmente para meditação, relaxamento e melhora da qualidade do sono. Seu trabalho também está presente em podcasts, vídeos e redes sociais, sempre com o objetivo de traduzir conhecimentos da neurociência e das práticas contemplativas em ferramentas acessíveis para o dia a dia.

A principal mensagem deixada ao longo de toda a entrevista é que o cérebro humano possui uma extraordinária capacidade de adaptação. Embora nossa tendência natural seja permanecer em estado de sobrevivência, é possível desenvolver novos hábitos, fortalecer recursos internos e construir uma vida com mais presença, clareza, equilíbrio emocional e qualidade de vida. Esse caminho exige constância, autoconhecimento e disposição para crescer continuamente, mas, segundo Giuliano, representa uma das transformações mais importantes que qualquer pessoa pode realizar ao longo da vida.