15 de julho de 2026

Entrevista Sem Censura 2025

Entrevista Sem Censura 2025

O programa reuniu convidados de diferentes áreas para discutir um tema em comum: a importância da saúde mental e do equilíbrio emocional para alcançar alta performance, seja no esporte, na música ou na vida profissional. Durante a conversa, Cissa Guimarães apresentou Giuliano Milan, criador do Método Milan de Construção de Presença, e Bruno Rezende, ex-capitão da seleção brasileira de vôlei, destacando como ambos utilizam o treinamento mental para lidar com situações de alta pressão. Logo no início, Giuliano fez uma observação importante ao ser questionado sobre ajudar pessoas a gerenciar suas emoções. Segundo ele, emoções não existem para serem controladas, mas sim sentidas e vividas. O objetivo do seu trabalho não é impedir que alguém sinta medo, ansiedade ou tristeza, mas ensinar a desenvolver recursos internos para lidar melhor com esses estados emocionais.

Ao contar sua história, Giuliano revelou que tudo começou a partir de uma infância extremamente difícil, marcada pela convivência com um pai muito violento. Ainda criança, precisou desenvolver intuitivamente estratégias para sobreviver emocionalmente naquele ambiente. Durante muitos anos essas habilidades permaneceram adormecidas, até que, já adulto, a gravidez de sua esposa despertou lembranças da infância que ele acreditava estarem superadas. Foi nesse período que passou a revisitar sua própria história, estudando profundamente neurociência, psicologia, meditação e comportamento humano para compreender cientificamente aquilo que havia aprendido de forma intuitiva quando criança.

Hoje, essas ferramentas fazem parte do método utilizado por ele com atletas, empresários e profissionais que trabalham sob intensa pressão. Giuliano destaca que seu trabalho não se apoia em apenas uma área do conhecimento. Pelo contrário, acredita que o ser humano é complexo demais para ser tratado por uma única abordagem. Em sua equipe trabalham psiquiatras, neurologistas, psicólogos e outros profissionais especializados. Para ele, cuidar da saúde mental exige uma visão interdisciplinar. Terapia, acompanhamento médico, meditação, espiritualidade e mudanças de hábitos podem atuar de forma complementar, dependendo da necessidade de cada pessoa.

Segundo Giuliano, muitas pessoas ainda não sabem por onde começar quando o assunto é saúde mental. Assim como décadas atrás poucos compreendiam a importância de uma alimentação saudável, atualmente ainda existe muita desinformação sobre os cuidados com a mente. Diante disso, muitos ficam perdidos sem saber se precisam procurar um psicólogo, um psiquiatra, iniciar uma prática de meditação ou buscar apoio em outras áreas. O mais importante, segundo ele, é entender que não existe uma única resposta válida para todos.

Durante a conversa, também foi lembrado que, durante muito tempo, falar sobre saúde mental dentro do esporte era considerado sinal de fraqueza. Existia uma cultura que valorizava apenas a força física e a capacidade de suportar qualquer sofrimento em silêncio. Giuliano destacou que esse cenário começou a mudar graças à coragem de atletas que decidiram tornar públicas suas dificuldades emocionais, como aconteceu com a ginasta Simone Biles. Para ele, reconhecer a necessidade de ajuda demonstra força, não fragilidade.

Um dos momentos mais práticos da entrevista aconteceu quando Giuliano explicou um dos exercícios utilizados em seu método. Segundo ele, a meditação é o principal recurso de seu trabalho, mas poucas pessoas conseguem praticá-la logo no início. Por isso, antes de meditar, é necessário preparar o cérebro por meio de exercícios simples, como se fosse uma academia para a mente. O primeiro deles consiste em acompanhar a própria respiração enquanto faz uma contagem mental. A pessoa inspira e expira contando de um até dez ou quinze. Sempre que perceber que perdeu a concentração ou esqueceu a sequência, deve simplesmente voltar ao número um e recomeçar.

A proposta parece simples, mas Giuliano explica que justamente essa dificuldade em manter a atenção revela o quanto a mente costuma permanecer acelerada durante o dia. O exercício não busca impedir que pensamentos apareçam. Pelo contrário, o objetivo é perceber quando eles surgem e desenvolver o hábito de retornar ao foco. Segundo ele, cada vez que a pessoa percebe a distração e volta para a respiração, está fortalecendo uma habilidade importante do cérebro.

Bruno Rezende contou como foi sua experiência durante as primeiras semanas de treinamento. Segundo ele, frequentemente chegava ao sexto ou sétimo número da contagem e, de repente, já estava pensando no treino, nos compromissos ou em qualquer outra preocupação. Isso fazia com que precisasse recomeçar várias vezes. Giuliano explicou que esse processo é completamente normal. Assim como um músculo precisa de repetição para ganhar força, o cérebro também necessita de prática constante para desenvolver novos padrões de funcionamento. O importante não é conseguir chegar ao final da contagem sem distrações, mas criar o hábito de retornar sempre que perceber que a mente se afastou.

Ele revelou ainda que Bruno levou aproximadamente dois anos para conseguir entrar em estados mais profundos de meditação. Não houve pressa nem expectativa por resultados imediatos. Todo o processo foi construído gradualmente, respeitando o tempo necessário para que o cérebro desenvolvesse essa nova habilidade.

Outro momento interessante da entrevista foi quando Giuliano contou como começou a trabalhar com atletas de alta performance. Até então, sua atuação era voltada principalmente ao ambiente corporativo. Tudo mudou durante uma visita à casa do empresário Wagner Ribeiro, quando assistia a uma disputa de pênaltis ao lado de outras pessoas. Observando o comportamento emocional dos jogadores, começou a prever quais atletas marcariam os gols e quais desperdiçariam as cobranças. Aquela experiência despertou a ideia de aplicar seus conhecimentos também no esporte de alto rendimento. Pouco tempo depois, iniciou uma parceria com Lucas Moura, dando início a uma trajetória que posteriormente incluiria diversos atletas da seleção brasileira, como Bruninho, Lucão, Éder, Lucarelli e Thiago Pereira. Durante a campanha olímpica do Rio de Janeiro, em 2016, vários desses atletas utilizavam diariamente os exercícios de respiração desenvolvidos por Giuliano como parte da preparação mental para as competições.

Na segunda parte da entrevista, Bruno Rezende compartilhou detalhes sobre sua trajetória no esporte e mostrou que sua história poderia ter seguido um caminho completamente diferente. Durante a infância, quando se mudou do Rio de Janeiro para Campinas, começou a praticar badminton ao lado dos amigos do clube onde frequentava. Evoluiu rapidamente na modalidade, disputando campeonatos sul-americanos, pan-americanos e chegando ao mais alto nível da categoria no Brasil. No entanto, por volta dos 14 ou 15 anos, recebeu um conselho decisivo de seu pai, Bernardinho. Era hora de escolher apenas um esporte para se dedicar integralmente. Bruno optou pelo vôlei, decisão que mudaria completamente sua vida.

Ele contou que sempre foi uma criança extremamente intensa, inquieta e competitiva. Dentro de casa, era comum quebrar objetos durante brincadeiras ou após derrotas em jogos. Quando perdia uma partida de badminton, por exemplo, frequentemente descontava a frustração quebrando a própria raquete. Ainda muito jovem, chegou a passar por acompanhamento psicológico, embora naquela época não estivesse preparado para compreender a importância desse trabalho. Hoje reconhece que aquele já era um sinal de que precisava aprender a lidar melhor com suas emoções.

Outro tema abordado foi o enorme peso de ser filho de dois grandes nomes do vôlei brasileiro: Bernardinho e Vera Mossa. Desde cedo, Bruno precisou conviver com comparações e expectativas elevadas. Esse desafio ficou ainda mais evidente quando estreou na seleção principal, em 2007. Naquele momento, Ricardinho era considerado o melhor levantador do mundo e havia conquistado inúmeros títulos pela seleção brasileira. Quando Bruno assumiu a posição, parte da torcida manifestou sua insatisfação por meio de vaias. Embora hoje compreenda que a reação estava muito mais relacionada à ausência de Ricardinho do que propriamente a ele, admite que, na época, foi uma experiência extremamente difícil.

Bruno também falou sobre a relação com seu pai durante os anos em que Bernardinho era seu treinador na seleção brasileira. Segundo ele, houve um período em que a convivência ficou bastante desgastada. Durante aproximadamente dois ou três anos, a relação entre pai e filho deu lugar praticamente apenas à relação entre treinador e atleta. Os treinamentos intensos, as cobranças constantes e a dificuldade em separar a vida profissional da vida familiar acabaram criando um certo distanciamento entre os dois.

Ao recordar sua carreira, Bruno afirmou que um dos momentos mais difíceis aconteceu durante os Jogos Olímpicos de Londres, em 2012. Depois de uma campanha praticamente perfeita, a seleção brasileira perdeu a medalha de ouro por apenas dois pontos. Segundo ele, aquela derrota representou um divisor de águas em sua vida. Até então, acreditava estar preparado em todos os aspectos para competir no mais alto nível. Fisicamente, tecnicamente e taticamente, sentia-se pronto. No entanto, percebeu que ainda faltava desenvolver a parte mental necessária para lidar com a enorme pressão de uma decisão olímpica.

Bruno contou que, após aquela derrota, perdeu parte do prazer de entrar em quadra. Em determinado momento chegou a ser expulso de uma partida após perder completamente o controle emocional. Pessoas próximas perceberam que algo precisava mudar e o incentivaram a buscar ajuda. Inicialmente, começou um trabalho com Orlando Cademartori, profissional ligado ao yoga e ao desenvolvimento humano. Mais tarde, por indicação de Alessandra, esposa de Giuliano Milan, iniciou o processo que mantém até hoje com Giuliano.

Segundo Bruno, foi justamente esse treinamento mental que completou sua preparação como atleta. Ele já possuía toda a estrutura física, técnica e tática necessária para competir, mas precisava aprender a administrar a ansiedade, o medo, a pressão e a responsabilidade presentes em grandes competições. O trabalho desenvolvido por Giuliano ofereceu ferramentas para enfrentar esses momentos com mais equilíbrio, permitindo que chegasse emocionalmente preparado aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016.

Bruno também revelou que, após Londres, enfrentou um período de ansiedade e isolamento. Em alguns momentos buscava nas saídas noturnas uma forma de escapar da pressão e do sofrimento, mas percebeu que esse comportamento apenas agravava sua situação emocional. Aos poucos, voltou sua atenção para hábitos mais saudáveis, como leitura, meditação, espiritualidade e desenvolvimento pessoal. Segundo ele, essas mudanças foram fundamentais para recuperar o equilíbrio e reconstruir sua confiança.

Ao falar sobre a conquista da medalha de ouro nas Olimpíadas do Rio de Janeiro, Bruno descreveu uma mistura intensa de sentimentos. A vitória representava muito mais do que um título. Era a conclusão de um ciclo iniciado quatro anos antes, marcado por frustrações, dúvidas e crescimento pessoal. O momento da conquista trouxe alívio, alegria e a sensação de que todo o trabalho realizado ao longo daqueles anos finalmente havia encontrado seu propósito.

Giuliano aproveitou para contar uma história que demonstra como o esporte pode impactar positivamente a vida das pessoas. Pouco tempo depois da conquista olímpica, ele e Bruno estavam em uma padaria quando uma senhora se aproximou para agradecer. Ela contou que, ao assistir à vitória da seleção brasileira na televisão, sentiu-se inspirada a levantar do sofá, procurar emprego e mudar sua realidade. Para Giuliano, histórias como essa mostram que o esporte vai muito além das medalhas. Grandes conquistas têm o poder de despertar esperança, motivação e confiança em pessoas que enfrentam momentos difíceis, tornando-se fonte de inspiração para toda a sociedade.

Na parte final da entrevista, Bruno falou sobre o lançamento de seu livro Entre Sombras e Vitórias. Segundo ele, a ideia surgiu durante o período em que atuava na Itália, quando dois jornalistas italianos o convidaram para contar sua história. A primeira edição foi publicada naquele país com o título Dal Buio all’Oro, que significa “Da Escuridão ao Ouro”. Posteriormente, a obra ganhou uma versão brasileira ampliada, com novos capítulos e um título que representa melhor sua trajetória. Para Bruno, a expressão “Entre Sombras e Vitórias” simboliza não apenas os desafios enfrentados ao longo da carreira, mas também a convivência com a expectativa de ser filho de duas grandes referências do esporte brasileiro.

Ao revisitar momentos importantes de sua vida para escrever o livro, Bruno contou que precisou retornar a lembranças difíceis, como a separação dos pais, os períodos de maior pressão psicológica e os momentos em que acreditou estar perdendo o prazer de jogar. Apesar da carga emocional envolvida, afirmou que esse processo também foi uma oportunidade de compreender melhor sua própria história e perceber o quanto cada dificuldade contribuiu para seu amadurecimento pessoal e profissional.

Segundo ele, olhar para trás permitiu enxergar que nenhuma conquista aconteceu por acaso. Cada obstáculo enfrentado ao longo da carreira ajudou a construir a pessoa que se tornou. Mesmo os momentos mais dolorosos serviram como aprendizado e reforçaram a importância de cuidar da saúde mental tanto quanto da preparação física.

Questionado sobre sua despedida da seleção brasileira após os Jogos Olímpicos de 2024, Bruno afirmou que tomou essa decisão em paz. Embora ainda tenha condições físicas para continuar competindo em alto nível, acredita que toda trajetória possui ciclos naturais. Para ele, chegou o momento de encerrar sua participação na seleção nacional, preservando as lembranças, as conquistas e o legado construído ao longo de tantos anos vestindo a camisa do Brasil.

Isso, no entanto, não significa que pretende abandonar o esporte. Bruno continua atuando por clubes e revelou que ainda sente enorme paixão pelo voleibol. Enquanto seu corpo permitir, deseja continuar jogando em alto nível. Além disso, afirmou que tem vontade de seguir carreira como treinador no futuro, transmitindo às novas gerações tudo o que aprendeu durante sua longa experiência nas quadras.

Ao longo de toda a conversa, ficou evidente que tanto Giuliano Milan quanto Bruno Rezende compartilham uma mesma visão sobre desempenho e desenvolvimento humano. Ambos defendem que excelência não depende apenas de talento, preparo físico ou conhecimento técnico. A capacidade de administrar emoções, enfrentar momentos difíceis e manter o equilíbrio psicológico é um dos fatores mais importantes para alcançar resultados consistentes ao longo da vida.

Giuliano reforçou que ninguém consegue eliminar completamente o medo, a ansiedade ou o estresse. Essas emoções fazem parte do funcionamento natural do cérebro humano. O verdadeiro treinamento consiste em aprender a conviver com elas sem permitir que assumam o controle das decisões e dos comportamentos. É justamente esse fortalecimento gradual da mente que permite enfrentar desafios com mais clareza, presença e equilíbrio.

Bruno complementou essa ideia mostrando que sua própria carreira foi construída muito além dos treinamentos dentro da quadra. A preparação mental passou a ocupar um espaço tão importante quanto os exercícios físicos e técnicos. Segundo ele, foi esse trabalho que permitiu transformar uma das maiores derrotas de sua carreira em combustível para conquistar o ouro olímpico alguns anos depois.

A entrevista também trouxe uma mensagem importante para pessoas que não são atletas. O treinamento da mente não serve apenas para quem compete em alto rendimento. Qualquer pessoa que enfrenta desafios profissionais, responsabilidades familiares, pressão no trabalho ou momentos difíceis pode se beneficiar de práticas que desenvolvam atenção, equilíbrio emocional e autoconhecimento. Pequenos hábitos, quando cultivados diariamente, podem produzir mudanças profundas na forma como lidamos com o estresse e com as dificuldades da vida.

Ao encerrar o programa, ficou clara a ideia de que o verdadeiro sucesso não está apenas nas conquistas externas, mas principalmente na capacidade de manter a saúde emocional durante toda a caminhada. O desempenho sustentável nasce da união entre corpo e mente, mostrando que cuidar das emoções é um investimento tão importante quanto qualquer outro treinamento. Mais do que buscar resultados extraordinários, desenvolver presença, equilíbrio e consciência permite viver de forma mais saudável, resiliente e preparada para enfrentar os desafios que fazem parte da vida de qualquer pessoa.