21 de agosto de 2026

Blind Spots

Blind Spots
Existe algo curioso sobre os pontos cegos, você não escolhe o que não vê. Se escolhesse, já teria enxergado. Os blind spots são exatamente isso, aspectos de nós mesmos que ficam fora do nosso alcance porque mecanismos de defesa inconscientes os mantêm ali, protegendo o ego do desconforto de encarar certas verdades.

Daniel Goleman, no livro "Inteligência Emocional", descreve bem como esses pontos cegos funcionam, mecanismos como a negação oferecem um alívio imediato do estresse, mas ao mesmo tempo nos impedem de enfrentar problemas reais, prejudicando nosso crescimento e nossa capacidade de nos relacionar bem com os outros. É um alívio que cobra juros altos depois.

Na minha experiência, o que mais vejo alimentar esses pontos cegos é justamente a falta de presença. Uma pessoa desconectada de si mesma não percebe quando está reagindo no automático, não percebe quando está justificando um comportamento em vez de examiná-lo. O cérebro da sobrevivência adora um ponto cego, ele existe exatamente para evitar a dor de encarar algo difícil, e sem presença suficiente para notar isso acontecendo, o padrão se repete indefinidamente.

Um exercício simples que costumo indicar é perguntar, o que as pessoas mais próximas de mim já tentaram me dizer sobre mim mesmo, que eu nunca realmente escutei? Geralmente há uma resposta ali, um comentário recorrente que a pessoa sempre minimizou ou justificou na hora.

Enxergar um ponto cego não acontece através de mais análise ou mais reflexão intelectual sozinha, isso a mente já faz naturalmente para se proteger. Acontece através de presença, de parar o suficiente para observar a própria reação no momento em que ela acontece, antes que a justificativa automática entre em cena. Contagem de respiração antes de responder a uma crítica, um momento de pausa quando alguém aponta algo desconfortável em vez de já sair defendendo, tudo isso cria a brecha necessária para que o ponto cego comece a aparecer.

Feedback honesto de pessoas próximas também ajuda, mas só funciona se a pessoa consegue realmente ouvir sem já estar formulando a defesa. E aqui, de novo, presença é o que separa quem escuta de quem só espera a vez de responder.

Ninguém elimina todos os próprios pontos cegos, isso não é realista. Mas cada vez que a gente treina a presença o suficiente para notar um deles, ganha um pouco mais de liberdade para escolher como agir, em vez de repetir o mesmo padrão sem nem perceber que está repetindo.

Giuliano Milan