Todos os dias eu me impressiono como não existe diferença racial, religiosa ou social quando o assunto é ansiedade. As crises de pânico estão cada vez mais frequentes em todas as faixas etárias e classes sociais, e isso eu vejo de perto, inclusive através de amigos psiquiatras e amigos que trabalham em plantão hospitalar.
O volume de pessoas que chegam ao hospital achando que estão tendo um ataque cardíaco é enorme, e depois da triagem, do eletro, percebem que não é nada disso, é uma crise de pânico. A pessoa acaba sendo medicada para melhorar o batimento cardíaco e depois encaminhada para a psicoterapia, com apoio medicamentoso até conseguir sair da crise. E os dados da OMS são alarmantes, o Transtorno de Ansiedade Generalizada vem crescendo de forma muito acelerada.
A minha área de atuação, a meditação, é um carro-chefe no tratamento da ansiedade, junto com a psicoterapia e o apoio medicamentoso. São três frentes que se complementam. Eu vejo uma melhora muito consistente em pessoas que praticam contemplação, não só meditação no sentido tradicional, mas uma abordagem multidisciplinar que reduz o estresse e a ansiedade de forma real.
O estresse e a ansiedade são comedores de performance e de qualidade de vida. Eles nos colocam na nossa versão de lutar, fugir ou paralisar, respostas muito animais e rudimentares, que funcionaram para nos trazer até aqui em termos de sobrevivência, mas que no mundo moderno já não servem mais. A gente não precisa mais lutar ou fugir de um predador. A gente precisa ser mais paciente e compassivo com os nossos pares no trabalho, e mais paciente e compassivo com nossos filhos na criação deles.
A grande questão é: como saímos desse lugar de sobrevivência e entramos no que eu chamo de cérebro da presença? Esse é o cérebro da alta performance, não só no trabalho, mas performance de vida, de qualidade de vida, de prazer de viver, de paz, de segurança emocional, onde você consegue ser a melhor versão de você mesmo, e não aquela versão mais animal e temerosa.
O medo é o pai da ansiedade e do estresse, e ele nos encolhe. Quando um bicho está com medo, ele fica acuado, mais reativo. Viver sob essa ótica do medo é como viver com menos brilho. E é por isso que as pessoas se incomodam, não só com a emoção do medo, mas com toda a cascata metabólica que ele causa no corpo. Mas esse incômodo é ótimo, porque é o que nos movimenta para sair desse lugar.
Sair desse lugar exige esforço, um bom apoio medicamentoso quando necessário, um bom psiquiatra, um bom processo psicoterapêutico para entender como gerenciar o estresse por dentro, mas também para entender que decisões e escolhas podem tornar a vida de fora menos estressante. Existem variáveis que não conseguimos controlar, não dá para mudar o caos do mundo ou a violência urbana, mas dá para fazer escolhas, buscar ambientes menos condensados, buscar mudanças que levam anos para se concretizar, repensar um relacionamento que é fonte constante de estresse, repensar a forma de educar os filhos.
Existem manejos externos e manejos internos. O meu trabalho entra justamente nos manejos internos, em como você pensa sobre as coisas, através da meditação e de práticas contemplativas adaptadas ao mundo moderno. São microexercícios de treino mental, uma espécie de ginástica para o seu dia a dia, exercícios rápidos e simples, que você faz de olhos abertos, sem precisar ir a um retiro espiritual ou aprender meditação num templo. Que você consiga inserir na sua rotina de pai, mãe, empresário, colaborador, não importa a sua função no mundo, e consiga manejar o suficiente para evitar que a panela de pressão explote numa crise de ansiedade.
E quanto mais cérebro da presença, e menos sobrevivência e medo, melhores são as nossas escolhas. Escolhas boas criam uma vida boa, escolhas ruins criam uma vida ruim, e uma vida ruim não cai do nada, ela é resultado de escolhas que se acumulam. Às vezes precisamos fazer escolhas difíceis, porque as escolhas boas costumam ser as mais difíceis no momento, e as escolhas fáceis costumam ser as mais difíceis a longo prazo, porque não levam a vida numa direção boa.
Se exercitar é uma escolha difícil, mas boa. Tratar bem as pessoas, às vezes, é uma escolha difícil, mas boa. Deixar de assistir uma série dramática, carregada de medo, que te coloca num estado emocional que não é bom, é difícil. Assistir um documentário positivo, dormir mais cedo para acordar mais cedo, são escolhas mais difíceis, mas são exatamente essas escolhas difíceis que produzem uma vida boa. As escolhas fáceis raramente produzem uma vida melhor.
E dentro desse espectro de buscar mais qualidade de vida, aprender técnicas contemplativas, exercícios de respiração, de visualização, de meditação, é uma saída muito inteligente. Não é das escolhas mais fáceis, mas produz efeitos muito positivos e sustentados. Vejo isso constantemente: pessoas que aprendem essas práticas acabam precisando de menos apoio medicamentoso, às vezes conseguem reduzir a dose da medicação, de tão poderosa que é a intervenção dessas práticas contemplativas milenares aplicadas ao dia a dia moderno.
Giuliano Milan
15 de julho de 2026
O Cérebro da Presença
