Lembro de conversas com jovens atletas e também com estudantes prestes a enfrentar um vestibular decisivo, e percebo sempre o mesmo padrão se repetindo. A mente entra em um estado de alerta que não diferencia uma prova de uma ameaça real. O cérebro da sobrevivência assume o controle, e o resultado é sempre o mesmo, um turbilhão de pensamentos acelerados, mãos suando, dificuldade de lembrar o que foi estudado durante meses.
Isso não é falta de preparo, é fisiologia. Quando o corpo interpreta a sala de prova como perigo, ele redireciona energia para reagir e fugir, não para pensar com clareza. É por isso que tantos estudantes brilhantes travam justamente no momento em que mais precisam de lucidez, o cérebro simplesmente não sabe que uma redação ou uma prova de múltipla escolha não coloca a vida em risco.
A boa notícia é que a calma pode ser treinada, assim como qualquer outra habilidade. Não é uma questão de personalidade, de quem "nasceu mais tranquilo", é construção de presença, é treino de atenção. E esse treino não precisa ser complicado nem demorado.
Uma das práticas mais simples que oriento é a contagem da respiração, contar de um a dez, e quando a mente se perder no meio do caminho, e ela vai se perder, simplesmente voltar ao um, sem julgamento. Esse gesto de voltar, sem se cobrar, é o próprio treino. É ele que ensina o cérebro a sair do modo automático de alerta e entrar em um estado de escolha.
Outra ferramenta poderosa é a visualização. Antes de uma prova importante, reservar alguns minutos para se imaginar entrando na sala, sentando, respirando, lendo as questões com calma, e terminando com a sensação de dever cumprido. O cérebro não distingue perfeitamente entre uma cena vividamente imaginada e uma vivida, e por isso essa prática ajuda a criar um caminho neural de familiaridade em vez de ameaça.
Pequenos exercícios físicos também fazem diferença, alongar o corpo, movimentar os ombros, caminhar por alguns minutos antes de entrar na sala. O corpo e a mente conversam o tempo todo, e mover o corpo é uma forma direta de sinalizar segurança para o sistema nervoso.
O que costumo dizer é que a preparação para uma prova não termina no conteúdo estudado. Ela inclui também preparar o estado interno de quem vai responder às perguntas. De nada adianta meses de estudo se, na hora decisiva, o cérebro da sobrevivência assume e apaga o acesso a tudo aquilo que foi aprendido.
Presença não é ausência de nervosismo. É a capacidade de sentir o nervosismo e, mesmo assim, permanecer conectado ao que se sabe, ao que se é capaz de fazer. É esse treino diário, repetido antes de cada prova, que separa quem trava de quem entrega o seu melhor no momento que mais importa.
Giuliano Milan
30 de julho de 2026
O Poder da Presença em Provas e Vestibulares
