13 de agosto de 2026

Positividade em Excesso

Positividade em Excesso
Um cliente meu, executivo de uma multinacional, me disse certa vez que estava "tudo bem" com a demissão de metade do time, "faz parte, a vida segue". Três semanas depois, ele estava com insônia, irritado com a família, sem conseguir se concentrar em nada. Ele não estava bem, estava fingindo estar bem, e o corpo dele cobrou a conta.

Isso é positividade em excesso, essa tendência de minimizar os próprios problemas, emoções difíceis ou desafios reais atrás de uma ênfase exagerada em manter uma atitude positiva. Chamar um sobrepeso de "não é tão grande assim" ou um vício de "eu só gosto bastante disso" são formas de negar a gravidade real de algo, disfarçadas de otimismo saudável.

Na minha leitura, o que sustenta esse padrão é justamente a falta de presença. Encarar uma emoção difícil de verdade exige estar ali, sentindo o que precisa ser sentido, e isso é desconfortável. É muito mais fácil para o cérebro da sobrevivência empurrar aquilo pra baixo do tapete com um "vai ficar tudo bem" automático do que ficar presente com a tristeza, o medo ou a raiva o tempo suficiente para processá-los de verdade.

A pesquisadora Brené Brown fala bastante sobre isso, destacando que encarar e aceitar nossas imperfeições e emoções negativas é fundamental para desenvolver resiliência emocional de verdade e construir relações genuínas. Esse tipo de fachada impede a vulnerabilidade que sustenta qualquer relação próxima.

O treino que ofereço para meus clientes vai direto nessa direção, não é sobre pensar mais positivo, é sobre estar presente o suficiente para sentir o que é real antes de decidir o que fazer com aquilo. Contagem de respiração, alguns minutos de meditação guiada, microexercícios de atenção que ajudam a notar quando você está fugindo de uma emoção em vez de atravessá-la, tudo isso cria espaço para a emoção genuína aparecer, sem julgamento e sem pressa de maquiá-la.

Reprimir uma emoção negativa não faz ela desaparecer, ela só fica represada, esperando o momento de transbordar, geralmente na forma de um problema de saúde física, uma explosão de raiva fora de hora, ou aquela insônia que meu cliente enfrentou. Sentir de verdade, incluindo o que é difícil, é o que finalmente permite seguir em frente.

Giuliano Milan