30 de julho de 2026

Ser Pai ou Mãe de Si Mesmo

Ser Pai ou Mãe de Si Mesmo
Ser pai ou mãe de si mesmo é uma expressão que uso com frequência no meu trabalho, e ela descreve um processo que muita gente precisa atravessar sem nunca ter tido esse nome antes. É o processo de aprender a oferecer a si mesmo o acolhimento, a segurança e a validação que talvez não tenham vindo de forma consistente na infância.

Isso não é sobre culpar os pais que tivemos, é sobre reconhecer, sem julgamento, que certas necessidades emocionais ficaram sem resposta, e que hoje, adultos, temos a capacidade de suprir parte delas por conta própria. Reconhecer isso já é o primeiro movimento, permitir que as próprias emoções sejam sentidas por completo, sem pressa de resolver ou justificar o que se sente.

Na minha experiência, o maior obstáculo nesse processo não é a falta de informação, quase todo mundo já ouviu falar em autocompaixão, em diálogo interno mais gentil. O obstáculo real é a falta de presença. Porque virar pai ou mãe de si mesmo exige estar ali, de verdade, no momento em que a emoção difícil aparece, em vez de fugir dela através de distração, trabalho em excesso, ou qualquer outra forma de desconexão automática.

É aqui que entram as ferramentas que aplico com meus clientes, contagem de respiração, microexercícios de atenção no corpo, alguns minutos de meditação guiada. Não são técnicas separadas do processo emocional, elas são o que sustenta esse processo. Sem presença, a pessoa até entende intelectualmente que precisa se tratar com mais gentileza, mas na hora em que a criança interna dispara em medo ou vergonha, o cérebro da sobrevivência assume o comando, e a resposta automática volta a ser a crítica dura, a mesma que talvez ela tenha ouvido quando era criança.

Estabelecer rotinas de autocuidado, aprender a dizer não, buscar apoio terapêutico e apoio médico quando necessário, tudo isso é muito importante. Percebo que o que dá sustentação a essas mudanças, na prática, é a capacidade de estar presente o suficiente para perceber o próprio estado emocional antes que ele vire reação automática. Isso é treino, não é dom, e como todo treino, funciona melhor com repetição diária, não com esforço isolado nos dias mais difíceis.

Ser pai ou mãe de si mesmo não substitui as relações reais que tivemos ou que temos, é um complemento, uma forma de garantir que o amor, o cuidado e o suporte que todo ser humano precisa não dependam inteiramente de mais ninguém. É um dos caminhos mais diretos que conheço para curar feridas antigas e construir, com consistência, uma vida mais estável e mais presente.

Giuliano Milan